terça-feira, 13 de setembro de 2011

Henry David Thoreau (1817-1862) - escritor norte-americano


“Jamais homem algum decaiu em minha estima por usar uma roupa remendada; no entanto, tenho certeza de que os homens geralmente se preocupam mais em ter roupas elegantes, ou pelo menos asseadas e sem remendos, do que em ter uma consciência limpa. Mas, mesmo que o rasgo fique sem consertar, o pior defeito que ele revela é talvez um certo desleixo. Às vezes apresento a meus conhecidos uns testes assim: quem usaria um remendo ou apenas uns dois pontos a mais no joelho? Em geral eles reagem como se suas perspectivas na vida fossem se arruinar por causa disso. É mais fácil irem à cidade mancando com uma perna quebrada do que com uma calça rasgada. Muitas vezes, se acontece um acidente com as pernas de um cavalheiro, elas podem ser consertadas; mas, se um acidente parecido acontece com as pernas de suas calças, não há remédio possível; pois ele leva em conta não o que é realmente respeitável, e sim o que é respeitado. Conhecemos poucos homens, mas inúmeros casacos e calças.”
“Para aquele cujo pensamento elástico e vigoroso acompanha o sol, o dia é uma perpétua manhã. Não importa o que dizem os relógios ou as atitudes e labores dos homens. Manhã é quando estou desperto e há uma aurora em mim. Reforma moral é o esforço de expulsar o sono. Como os homens mal conseguem prestar contas do dia que viveram, se não estavam cochilando? Afinal não são tão ruins de cálculo. Se o torpor não os vencesse, teriam realizado alguma coisa. Milhões estão despertos o suficiente para o trabalho físico; mas apenas um em um milhão está desperto o suficiente para um efetivo esforço intelectual, apenas um em cem milhões, para uma vida poética ou sublime. Estar desperto é estar vivo. Ainda não encontrei nenhum homem que estivesse totalmente desperto. Como poderia olhá-lo na face?”
“Somos subdesenvolvidos, atrofiados, iletrados; e neste aspecto confesso que não faço nenhuma grande diferença entre o analfabetismo do concidadão que não sabe ler uma letra e o analfabetismo daquele que aprendeu a ler apenas coisas para crianças e inteligências fracas. Devíamos ser tão bons quanto os valorosos da antiguidade, mas em parte isso consiste primeiro em saber quão bons eles eram. Somos uma raça de chapins, e em nossos vôos intelectuais não subimos muito acima das colunas do jornal. Nem todos os livros são tão obtusos quanto seus leitores.”
“Por mais mesquinha que seja sua vida, aceite-a e viva-a; não se esquive a ela nem a trate com termos duros. Ela não é tão ruim quanto você. Ela parece tanto mais pobre quanto mais rico você é. Quem vê defeito em tudo verá defeitos até no paraíso. Ame sua vida, por pobre que seja. Talvez você possa ter algumas horas agradáveis, emocionantes, gloriosas, mesmo num asilo de pobres. O poente se reflete nas janelas do albergue de mendigos com o mesmo fulgor com que brilha na morada dos ricos; a neve se dissolve em ambas as portas na mesma época da primavera. Não vejo por que um espírito sereno não possa viver com o mesmo contentamento e com pensamentos alegres num asilo ou num palácio. Muitas vezes me parece que os pobres da cidade são os que vivem a vida mais independente de todas. Pode ser que simplesmente tenham a grandeza suficiente para receber sem temores. Muitos homens se  julgam acima de aceitar sustento o município; mas amiúde não estão acima de se sustentar por meios desonestos, o que deveria ser mais vergonhoso.”

sábado, 25 de junho de 2011

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) - escritor francês


“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.”

“Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta.”

“É tão misterioso, o país das lágrimas!”

“Para os reis, o mundo é muito simplificado. Todos os homens são súditos.”

“É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução.”

“É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio.”

“Quando a gente quer fazer graça, mente às vezes um pouco.”

“As estrelas são todas iluminadas... Não será para que cada um possa um dia encontrar a sua?”

“A gente está um pouco só no deserto. Entre os homens também.”

“Eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...”

“Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas.”

“É muito simples: só se vê com o coração. O essencial é invisível para os olhos.”

“Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E, no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia...”

“O que torna belo o deserto é que ele esconde um poço nalgum lugar.”

“Todas as estrelas estão floridas.”

J. D. Salinger (1919-2010) - escritor norte-americano

“Parece-me indiscutível que muita gente no mundo todo, malgrado as diferenças de idade, cultura e dotes naturais, reage com ímpeto especial em certos casos até mesmo febril, aos artistas e poetas que, além da reputação de produzirem arte de alta qualidade, têm algo de extravagantemente errado como indivíduos: um defeito espetacular de caráter ou de comportamento cívico, uma desgraça ou vícios supostamente românticos – extremo egotismo, infidelidade conjugal, surdez, cegueira, sede insaciável, tosse mortal, fraqueza por prostitutas, certa parcialidade em favor do adultério ou do incesto em larga escala, queda comprovada ou não pelo ópio ou pela sodomia etc. etc. Deus tenha piedade dessas solitárias criaturas. Se o suicídio não encabeça o rol das constrangedoras enfermidades dos homens criativos, é impossível negar que o poeta ou artista suicida sempre mereceu uma grande dose de ávida atenção, com freqüência por razões meramente sentimentais, como se ele fosse (para colocar a coisa de maneira muito mais horrível do que realmente desejo) o filhote estropiado da ninhada.”

“Quanto mais caro um colégio, mais gente safada tem.”

“Não me agrada muito ver um sujeito velho de pijama ou roupão. Fica sempre aparecendo o peito, todo ossudo e encalombado. E as pernas. Perna de gente velha na praia é sempre branca e sem cabelo.”

“Se me sentisse um pouquinho melhor ia ter que chamar um médico.”

“(Sacudi a cabeça. Eu costumo sacudir a cabeça um bocado.) – Puxa! – disse. Eu também vivo dizendo “Puxa!”, em parte porque tenho um vocabulário horroroso, e em parte porque às vezes me comporto como se fosse um garoto. Naquele tempo eu tinha 16 anos – estou com 17 agora – mas de vez em quando me comporto como se tivesse uns treze. E a coisa é ainda mais ridícula porque tenho um metro e oitenta e cinco e já estou cheio de cabelos brancos. Estou mesmo. Um lado da minha cabeça – o direito – tem milhões de cabelos brancos desde que eu era um garotinho. Apesar disso, às vezes me comporto como se tivesse doze anos. É o que todo mundo diz, principalmente meu pai. Até certo ponto é verdade, mas não é totalmente verdade. As pessoas estão sempre pensando que alguma coisa é totalmente verdadeira. Eu nem ligo, mas tem horas que fico chateado quando alguém vem dizer para me comportar como um rapaz da minha idade. Outras vezes, me comporto como se fosse bem mais velho – no duro – mas aí ninguém repara. Ninguém nunca repara em coisa nenhuma.”

“Não é preciso pensar muito quando se fala com um professor.”

“Todos os imbecis detestam ser chamados de imbecis.”

“Normalmente, eu gosto de andar de trem, principalmente de noite, com as luzes acesas e as janelas tão escuras, e um desses sujeitos passando pelo corredor, vendendo café, sanduíches e revistas. Normalmente eu compro um sanduíche de presunto e mais ou menos quatro revistas. Num trem, de noite, sou até capaz de ler uma dessas estórias imbecis sem vomitar de nojo. Uma dessas estórias com uma porção de machões de queixo ossudo, chamados David, e uma porção de garotas bestas chamadas Linda ou Márcia, que estão sempre acendendo os cachimbos dos David para eles. Normalmente, consigo ler até mesmo uma dessas estórias cretinas se estou andando de trem, de noite. Mas dessa vez foi diferente. Pura e simplesmente, não estava no estado de espírito necessário. A única coisa que fiz foi tirar meu chapéu de caça e guardá-lo no bolso. De repente, uma dona tomou o trem em Trenton e sentou ao meu lado. Já era um bocado tarde e tudo, e por isso o vagão estava praticamente vazio, mas ela sentou bem ao meu lado, e não em qualquer banco vazio, porque vinha carregando uma mala enorme e eu estava logo no corredor, onde o condutor ou qualquer um podia tropeçar nela. Estava usando umas orquídeas, como se tivesse acabado de sair de uma baita duma festa ou coisa parecida. Acho que ela devia ter uns quarenta ou quarenta e cinco anos, mas era um bocado bonita. Sou doido por mulher. No duro. Não que eu seja nenhum tarado nem nada, embora seja bastante macho. O negócio é que eu gosto mesmo das mulheres. Elas estão sempre deixando a porcaria das malas delas bem no meio dos corredores.”

“A maioria das pessoas ou não sabem sorrir ou têm um sorriso pavoroso.”

“... tinha tanta sensibilidade quanto um assento de privada.”

“Não faz mal. A gente pode fumar até eles começarem a reclamar.”

“Quando estou com gente burra fico burro também.

“Não há uma boate no mundo onde a gente possa ficar muito tempo, a não ser que tome umas e outras e fique logo de porre. Ou então, a não ser que a gente esteja com alguma garota que deixe o sujeito maluco.”

“Ele é tão bom que chega quase a ser chato.”

“As pessoas estão sempre atrapalhando a vida da gente!”

“As pessoas sempre batem palmas pelas coisas erradas. Se eu fosse pianista, ia tocar dentro de um armário. Juro por Deus que, se fosse um pianista, ou um autor, ou coisa que o valha, e todos aqueles bobalhões me achassem fabuloso, ia ter raiva de viver. Não ia querer nem que me aplaudissem.”

“O que eu não gasto, acabo perdendo.”

“O vestíbulo estava inteiramente deserto, cheirando a cinqüenta milhões de cigarros apagados.”

“Não é nada engraçado ser covarde.”

“Dinheiro é uma droga. Acaba sempre fazendo a gente se sentir triste pra burro.”

“Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém.”

“É engraçado, basta a gente dizer alguma coisa que ninguém entende para que façam praticamente tudo que a gente quer.”

“É gozado, os adultos ficam horríveis quando estão dormindo de boca aberta, mas as crianças não. As crianças ficam cem por cento. Podem até ter babado todo o travesseiro, que continuam cem por cento.”

terça-feira, 21 de junho de 2011

Rubem Fonseca (1925) - escritor brasileiro


“O diálogo é sabidamente um recurso dos escritores medíocres.”

“(...) uma pessoa nua só pode dizer ou uma verdade óbvia ou uma mentira óbvia.”

“A verdade fundamental que todo escritor cedo ou tarde tem que descobrir: as palavras não são nossas amigas. Uma verdade simples: as palavras são nossas inimigas. Eu descobri tarde demais.”

“Só com a roupa do corpo uma mulher não vai muito longe.”

“Se tivermos que julgar um homem por um único ato, e se pudéssemos escolher esse ato, deveríamos avaliar a maneira como ele se olha no espelho.”

“Será que é tarefa do escritor trazer mais medo a este mundo? Será este um propósito do ser humano? Sim, sim, o objetivo honrado do escritor é encher os corações de medo, é dizer o que não deve ser dito, é dizer o que ninguém quer dizer, é dizer o que ninguém quer ouvir. Esta é a verdadeira poiesis.”

“(...) um idiota que percorria todos os dias as ruas de uma aldeia de pescadores gritando “eu vi a sereia, eu via a sereia!”e que um dia viu realmente a sereia ficou mudo. O poeta é como esse bobo da aldeia? Se o confronto com a realidade ofuscar sua imaginação ele também ficará mudo?”

William Faulkner (1897-1962) - escritor norte-americano


“Posso me lembrar de como quando era jovem eu acreditava que a morte era um fenômeno do corpo; agora sei que é apenas uma função da mente – e da mente daqueles que sofrem a perda de alguém. Os niilistas dizem que é o fim; os fundamentalistas, o começo; quando na realidade não é mais do que um simples inquilino ou uma família deixando uma casa ou uma cidade.”

“(...) se a única salvação de um homem é mesmo o casamento, então ele está perdido de vez.”

“As pessoas parecem se afastar cada vez mais do velho princípio que diz que devemos pregar bem os pregos e aparar bem as pontas sempre como se estivéssemos fazendo isso para o nosso próprio uso e conforto. É como se algumas pessoas tivessem as pranchas suaves e polidas para construir um galinheiro. Mas é melhor construir um galinheiro bem feito do que construir um tribunal malfeito, e se forem bem ou mal construídos não importa porque não é um ou outro que vai fazer um homem se sentir bem ou mal.”

Guy de Maupassant (1850-1893) - escritor francês


“Festa da República. Passeei pelas ruas. Os petardos e as bandeiras me divertiam como se fosse uma criança. No entanto, é uma grande tolice ficar alegre em data fixa, por decreto do governo. O povo é um rebanho imbecil, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado. Dizem-lhe: “Diverte-te.” Ele diverte-se. Dizem-lhe: “Vai lutar com teu vizinho.” Ele vai. Dizem-lhe: “Vota pelo Imperador.” Ele vota pelo Imperador. Depois, dizem: “Vota pela República.” E ele vota pela República. Os que o dirigem são igualmente imbecis; mas, em vez de obedecerem a homens, eles obedecem a Princípios, os quais só podem ser tolos, estéreis e falsos, pelo próprio fato de serem princípios, isto é, idéias consideradas certas e imutáveis, neste mundo onde não se tem certeza de nada, já que a luz é uma ilusão, já que o ruído é uma ilusão.”

“De fato, a solidão é perigosa para as inteligências que trabalham. Necessitamos, à nossa volta, de homens que pensem e que falem. Quando permanecemos muito tempo sozinhos, povoamos o vazio de fantasmas.”

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Thomas Mann (1875-1955) - escritor alemão


“A doença absolutamente não é nobre, e nem um pouquinho digna de reverência. Essa concepção é por si mesma mórbida ou leva à morbidez. O método mais acertado de despertar repugnância contra ela, talvez seja dizer que é velha e feia. Tem ela a sua origem em épocas supersticiosas, acossadas de remorsos, e nas quais a idéia do humano, privada de toda dignidade, degenera a ponto de se tornar uma caricatura, épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar como coisas suspeitas, diabólicas, ao passo que a debilidade equivalia a um passaporte para o céu. Mas a razão e o esclarecimento dissiparam essas sombras que pairavam sobre a alma da humanidade; verdade é que ainda não terminaram a sua obra, e a luta continua. Essa luta chama-se trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da humanidade. E temperadas, dia a dia, por essa luta, aquelas forças acabarão por libertar o homem e por guiá-lo pelos caminhos do progresso e da civilização, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais sua e mais pura.”

“Há duas atitudes: a livre e a piedosa. Ambas têm as suas vantagens, mas o que me faz antipatizar com a atitude livre, é que ela pretende ter o monopólio da dignidade. Isso é exagerado. A outra atitude encerra também a seu modo, muita dignidade humana e resulta num vasto conjunto de decência, de procedimento correto e de nobre cerimonial, muito mais do que a atitude livre, embora vise especialmente à fraqueza e à instabilidade dos homens e nela desempenhe um papel importante o pensamento da morte e da decomposição.”
Heinrich e Thomas Mann
“Nada é mais estranho, mais melindroso que a relação de pessoas que só se conhecem de vista – que diariamente, em cada hora mesmo, se encontram, se observam; são obrigadas a manter a aparência de indiferente estranheza, sem cumprimento, sem palavra, pela ética ou capricho pessoal. Entre eles há inquietação e curiosidade sobreexcitada, a histeria de uma insatisfeita e artificialmente oprimida necessidade de conhecimento e intercâmbio, e principalmente também uma espécie de respeitoso interesse. Pois o homem ama e respeita o homem enquanto não consegue julgá-lo; e o anseio é o produto de um conhecimento falho.”

“O desespero é algo deselegante e imoral.”
Thomas Mann com Albert Einstein em Princeton em 1938